Quinta-feira, 28 de Fevereiro de 2013

O edifício dos Correios, em Dublin, foi recuperado após a revolta de 1916. Respeitaram a traça e a decoração original. Predominam as madeiras polidas e envernizadas com incrustações de cobre e prata, e tetos pintados. Mantem-se funcional existindo aí muitos serviços administrativos. A beleza e funcionalidade conferem ao edíficio mais dignidade do que aquela em que serviu de palco ao sangrento massacre.

A Kilmainham Gaol é uma construção Vitoriana com um terraço central de forma oval, coberto com vidro que, segundo os preceitos Vitorianos, permitia, aos reclusos, receber os raios de sol, dádiva de Deus, que ajudaria no seu processo de reeducação. Deste terraço acede-se aos andares superiores através de uma escada em caracol com corrimão e um gradeamento em ferro. É um espaço muito bonito e já foi utilizado para filmar algumas cenas de cinema, nomeadamente o "Em Nome do Pai" com o ator Daniel Day Lewis.

Em Kilmainham, lugar de privação de liberdade, tortura, dor, solidão e morte existe um pequeno espaço onde se concretizou o sonho de dois seres e se protagonizou uma das mais belas histórias de amor. Esse lugar, carregado de simbologia, é a Capela. Uma sala pequena e simples, com um modesto altar colocado no lugar onde antes era uma porta que dava para um pátio onde se fuzilavam os presos, cuja sentença ditava esse fim. Foi construída em 1882 por um recluso que havia sido condenado a 7 anos de cadeia por roubar a roda de um carro. Nesta capela, realizou-se um casamento em que o casal tinha, como futuro, apenas o dia seguinte. Com a vida interrompida e a morte anunciada do noivo, condenação inalterável, não sei que felicidade experimentaram mas estarem juntos naquele momento e num ato tão simbólico, foi tudo o que puderam e quiseram dar um ao outro.

Joseph Plunkett, com 25 anos, foi um dos lideres da resistência Irlandesa que em 1916 foi preso, julgado e condenado à morte. Apesar do peso desta condenação, a sua namorada, Grace Gifford, quis casar antes que fosse cumprida a sentença. As autoridades competentes deferiram o pedido e a cerimónia do casamento decorreu na singela capela da prisão Kilmainham Gaol onde estava preso Joseph Plunkett. Quando a cerimónia terminou Joseph foi novamente para a sua cela e a recém esposa, agora Grace Plunkett, acompanhada à saída da prisão. Aí permaneceu, encostada ao muro, até às 4 horas da manhã, hora a que ouviu os tiros que tiraram a vida ao seu amado.

Poucos terão tido a honra de testemunhar este ato de amor mas houve alguém que, com a sua bondade, surpreendeu a desgraçada Grace. No dia anterior à data do casamento, chorosa, foi comprar as alianças. A sua imagem de tristeza não combinava com o acto que iria realizar e suscitou a curiosidade do ourives que, depois de saber o que se passava, lhe ofereceu as alianças mais caras que tinha na loja.

Enquanto houver alguém que nos credibilize como humanos, a vida tem valor e o nosso futuro é possível.

Não sei que força a animou para, naquela madrugada, abandonar a parede que a separava do pátio onde jazia o seu marido. Não me custa crer que, no seu entendimento, a melhor maneira de o chorar seria empreender a sua luta. Ela não voltou a casar mas voltou àquela prisão, no período da guerra civil, então, como reclusa.

A história de Kilmainham Gaol fez-se de sangue mas também de amor.



quem voou foi a Carriça às 00:11
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